Amar para Além

dos Muros

 

 

Um estilo de vida, uma ideologia, um jeito contemporâneo de se relacionar.

A não monogamia engloba diferentes tipos de interações afetivas

que fogem do padrão. Sua principal premissa é a aversão à posse. 

 

Já imaginou se a configuração de relacionamento de Bentinho e Capitu fosse diferente do convencional? E se eles fossem um casal com um relacionamento aberto, poliamorosos e não monogâmicos? Certamente um dos grandes mistérios da literatura brasileira nunca teria acontecido e jamais nos perguntaríamos “Capitu traiu ou não traiu Bentinho?”. Neste arranjo de relações afetivas e amorosas não há espaço para desconfiança, nem para qualquer tipo de cerceamento de autonomias individuais. A não monogamia desafia ao questionar se existe um limite para a soberania de amar.

 

O sociólogo alemão Herbert Marcuse, famoso por suas considerações sobre as relações humanas, acreditava que uma sociedade sem repressões ou limites à liberdade sexual, amorosa e emocional seria muito mais humana, mais amigável, mais habitável. É o que considera também a diretora criativa, influencer, multiartista e ativista da causa não-monogâmica e do poliamorismo, Flávia Carvalho, 30. Vivendo dois relacionamentos paralelos, um há seis anos com o seu marido Hugo e outro há sete meses com a sua namorada Kali, a paulista considera que a não monogamia é um movimento de contracultura da sociedade. “Uma outra visão que vai totalmente contra as instituições de posse e de manipulação de relacionamentos. Acredito que a não monogamia quebra padrões da nossa sociedade que estão extremamente enraizados.” discorre. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Flá, Hugo e Kali se consideram uma família como qualquer outra e fazem planos para o futuro. (Foto: Acervo pessoal)

Flá, como também é conhecida nas redes sociais, faz de sua identificação amorosa uma autodeclaração política. Estando em um arranjo inter-racial e em “V”, no qual seus parceiros não se relacionam amorosamente entre si, a multiartista avalia que apesar da não intencionalidade sabe que seus relacionamentos confrontam diversos problemas sociais. “No momento que a gente questiona a monogamia, questionamos também todo um sistema de opressão, do patriarcado, de gordofobia, lgbtfobia e racismo. A monogamia é um conjunto de regras opressoras da sociedade, impostas como única escolha de nossas vidas a fim de nos controlar.” declara.

 

Morando com seus parceiros há quase três meses, o trio se considera uma família como qualquer outra. Kali, Hugo e Flávia mantêm uma rotina ajustada de acordo com as suas necessidades. Na casa, cada um tem seu quarto e Flávia intercala as noites que dorme ao lado deles, sem esquecer de separar um momento para si. Os casais procuram manter, ainda, um diálogo aberto sem impor quaisquer limitações. “Nós acreditamos que não existem regras, mas sim limites pessoais que vão sendo conversados. Mas ninguém é proibido de nada. O único acordo é a saúde, então, sempre nos prevenimos e nos testamos de forma periódica.” revela a influencer.

Bissexualidade, família e futuro

 Flávia vive entre dois mundos opostos e extremos. Ao iniciar seu namoro com Kali no final de 2020, a multiartista assumiu, também, a sua bissexualidade. Seu primeiro relacionamento lésbico ocasionou um choque com a sua experiência até então heteronormativa de seu casamento com Hugo. “As pessoas não levam muito a sério o meu relacionamento com a Kali, elas julgam ser um caso passageiro, uma espécie de aventura. Quando estou na rua com ela eu sinto mais olhares, quando posto foto no instagram com ela sinto que meu engajamento cai.” afirma.

 

A invisibilização de sua sexualidade e seu relacionamento com Kali atinge também a sua esfera familiar. Apesar de seus parentes aceitarem seus dois relacionamentos, Flávia sente que há uma diferença de tratamento entre ambos. “Ao invés de estar num relacionamento com ela, se eu estivesse com outro homem isso não seria tão pesado para eles.” pontua.

 

Mas apesar das implicações impostas ao seu namoro e ao seu casamento, Flávia planeja aumentar sua família em breve. A parentalidade coletiva é uma das metas para o futuro do trio e eles se preparam para proporcionar ao seu filho um lar com duas mães e um pai. “Eu quero ser mãe, e o Hugo também sempre quis ser pai. Com a chegada da Kali isso aflorou ainda mais na gente. Essa é a nossa visão política de entender o que é família e suas diferentes configurações familiares”, conta.

 

Um casal, só que composto por três pessoas

 A história de Bruno, 38, Styvis, 30, e André, 28, é mais comum do que muitos possam imaginar. Os três se conheceram da mesma forma, em um aplicativo de relacionamento voltado para o público gay. Apesar da paixão iminente, o trisal só foi ficar junto há quase dois anos com a chegada de André, último integrante a entrar nesse triângulo amoroso. Os três, têm um relacionamento fechado, no qual não podem ter qualquer tipo de envolvimento amoroso com terceiros, com algumas exceções. “Temos algumas regras, como não transar com outras pessoas e beijar outras pessoas apenas em festas.” relata André.

 

 

 

 

 

Apesar da diferença de idade, o trio têm em comum a mesma paixão por vídeo games, ilustrações e animes. (Foto: Acervo pessoal)

 

Por causa da pandemia da Covid-19, o trio decidiu morar junto e dividir muito mais do que só seus status de relacionamento. Dentre os planos para o futuro do trisal eles planejam oficializar seu amor. E eles não seriam o primeiro arranjo poliafetivo a serem reconhecidos pela lei. Apesar do sistema jurídico brasileiro se posicionar de forma contrária às novas configurações amorosas, o reconhecimento da união estável entre mais de duas pessoas já é uma realidade no Brasil. Segundo um artigo publicado pelo jurista Fábio Galvão, há no país pouco mais de dez uniões poliafetivas legalmente assentidas.

 

A assinatura de um simples pedaço de papel representa um movimento natural de evolução da sociedade que expande seus horizontes para a compreensão das relações não monogâmicas e poliafetivas. O direito civil ao amor, seja ele como for, é parte fundamental para as transformações nas estruturas sociais e políticas que reavaliem concepções morais e éticas da humanidade. A não monogamia não é sobre quantidade de pessoas, nem só sobre sexo, é sobre ninguém, além de você mesmo, poder dizer como quer amar.

 

 

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Amar para
além dos muros

Beabá da não-monogamia

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Onivaldo Neto

@oninetoo

Jornalista em formação. Apaixonado por moda, cultura e comunicação.